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Água: reduza o consumo sem pôr a mão no bolso

Ela é segunda despesa mais alta do condomínio e exige ações para sua economia. Saiba como alcançar reduções significativas pagando o investimento apenas com a eliminação dos desperdícios.

Resolver o problema da conta alta de água em condomínio parece difícil. Os prédios não foram construídos para serem sustentáveis e adaptá-los a este novo conceito nem sempre é possível, seja por razões construtivas, seja por falta de recursos, ou ainda pela dificuldade para aprovar obras onerosas e que exijam grandes intervenções. Uma mudança para separar as águas cinzas da rede de esgoto sozinha garantiria uma economia de 50% das águas de banheiros. Mas, na maioria dos casos, a solução é inviável. E em tempos de crise a prioridade é evitar a inadimplência, o que faz com que investimentos como este, ou mesmo em captação e uso da água de chuva, ou a individualização de hidrômetros, sejam deixados para depois. A pergunta é como então reduzir o consumo de água? Se você respondeu impossível, acredite, está errado. Quem já alcançou economia na conta de água de mais de 30%, sem mexer em dinheiro, prova que é possível.

É que junto com as soluções tecnológicas sustentáveis surgiu a demanda por empresas especializadas também para a sua manutenção e para dar acesso a elas. O mercado brasileiro é resistente, com mão de obra pouco qualificada e sem incentivos. Isto somado a instabilidade política e financeira do País torna as pessoas temerosas, especialmente, quando o assunto é investir em algo moderno, sobre o qual pouco ou nada sabem. É aí que surgem as alternativas. No âmbito das soluções para a redução do consumo de água, o que vem conquistando consumidores são os “serviços de risco”, em que a empresa assume a correção de perdas e desperdícios, acordando, por contrato, remunerar-se apenas com parte dos recursos economizados com contas de água menores. É semelhante ao que também existe para a redução do consumo de energia elétrica.

Octávio Dias Moreira Filho, empresário e engenheiro especializado em redes de água e esgoto, com 37 anos de experiência como responsável pela rede de abastecimento de água de toda a região metropolitana do Rio, como funcionário da CEDAE, há quatro anos oferece o serviço e conta que a cada proposta precisa explicar que não é pegadinha. “A todos que apresentamos o projeto temos que explicar que é possível. As pessoas não acreditam, mas o desperdício é tão grande e a água tão cara que não é um mau negócio trabalhar no risco”, afirma.

A suspeita não é sem justificativa. O serviço inclui a avaliação e correção de perdas, incluindo mão de obra e peças, além de uma cláusula de manutenção gratuita, com os mesmos itens, pela duração do contrato, de dois e três anos em sua maioria. A solução vem ganhando adeptos, todos satisfeitos pelos ganhos que superam, na maioria das vezes, a média prevista, que é de 30%. E, grata surpresa, com a redução do consumo de água vem uma redução da conta de energia elétrica, pois o número de acionamento das bombas diminui. “A qualidade da manutenção é garantida, pois assim economizamos peças e visitas técnicas ao prédio, com a certeza de que não perderemos o investimento por danos não corrigidos pelos usuários, ou mal corrigidos”, diz.

Alternativa com boa receptividade

O hoje conselheiro consultivo Sérgio Fernandes Paes de Souza era síndico quando o Condomínio Silva Araújo aprovou um projeto semelhante e conta que a queda do valor da conta logo no início foi muito grande. “O projeto foi muito bem recebido pelos moradores e teve um enorme impacto. Nossa conta que era de 28 mil, caiu para 20 mil. Na ocasião pensávamos em colocar hidrômetros individualizados, mas o investimento seria muito alto, e soube de outro prédio que havia contratado um serviço que se pagava apenas com a economia com a redução da conta de água”, lembra, acrescentando que o condomínio não colocou dinheiro nenhum e ainda ficou tranquilo quanto as manutenções. “Por contrato, temos um teto de consumo. Uma meta a ser cumprida. O nosso consumo de água passou a ser mais controlado, fazem um controle maior do que faríamos. Foi um benefício muito bom para o condomínio. E eles ainda ajudaram com dicas e orientações para o bom uso das bombas o que ajudou também a conta de energia cair”, conta.

No Condomínio Palazzo, o síndico Luiz Carlos Cardoso Rodrigues, também contou com o serviço do tipo para resolver o alto custa da conta de água que era de mais de 20 mil por mês. “Contratamos um serviço especializado em redução de consumo de água contudo incluído porque o morador ainda não está consciente do alto custo da água, deixa uma pia pingando ou outro vazamento qualquer sem conserto”, diz. Segundo Luiz Carlos o serviço teve início em agosto passado e já nos primeiros meses a média de consumo que era de 40 mil m3 passou a 23 mil. “Isto é significativo e superou mesmo a meta da empresa que era de uma economia na ordem de 30%. Isso em dinheiro é muita coisa porque a conta da CEDAE é cobrada por faixa de consumo”, diz o síndico, acrescentando que achou que enfrentaria uma resistência maior por parte dos condôminos Mas, em 48 unidades, somente no primeiro bloco, não teve problemas com nenhum deles. Já está com 50% do segundo bloco implantado e tudo caminha para a mesma tranquilidade. “Quanto mais perdas corrigidas, melhor o resultado. Não descartamos outras soluções, mais difíceis de aprovar. Elas seriam complementares. Pretendemos separar parte desta economia para, no futuro fazer a individualização dos hidrômetros, que é a forma mais justa cobrança pelo consumo de água, e também a captação da água de chuva, pois temos um espaço de cobertura grande e muita área verde para regar e o consumo com regas é alto, depois é um desperdício utilizarmos água potável para limpeza e rega”, completa.

Para Luiz Carlos, o serviço é muito interessante e ele recomenda apenas que, antes de contratar se avalie uma média de consumo extensa, de seis, 12 meses, anteriores por questão de sazonalidade. A lógica e simples, se fizer a média de consumo pegando apenas os três primeiros meses do ano, que são os do verão, por exemplo, a meta será alta e o condomínio levará mais tempo para ter retorno. “Para a empresa é bom, mas para o condomínio o retorno demorará mais. Por isto uma meta extensa para fugir da sazonalidade, em que a média do consumo é alta”.

Serviço exige mão de obra qualificada

O serviço exige um estudo prévio de viabilidade em que são avaliadas todas as nuances em função da marca de cada peça hidráulica instalada. “É preciso estudar os equipamentos para apresentar a melhor solução, isto para cada item – torneira e chuveiros, descargas –, que dependem da marca, pois cada uma tem uma vida útil e especificações técnicas distintas”, explica.

Este estudo contempla todo o sistema de distribuição de água do prédio, nas áreas comuns e pontos de água das unidades. É preciso considerar o prédio como um todo, inclusive as instalações dentro das unidades, para corrigir perdas. “Trabalhamos com pontos de saída de água, toda a tubulação e reservatório, mas também com válvulas de descargas, torneiras, peças e equipamentos modernos, desenhados para economizar água”, detalha Otávio, acrescentando que o profissional precisa ser especializado em cada uma delas. “O que mais se vê são válvulas dual fluxo desreguladas, quando não danificadas, por terem sido instaladas de modo errado. Os bombeiros hidráulicos mais antigos e sem passarem por uma atualização não estão aptos a lidar com peças desenvolvidas para economizar água”, afirma.

Além da análise física da edificação para o estudo das instalações , é feita também uma análise financeira da conta. Tudo isto porque o investimento da empresa é alto. Mas, como o desperdício também é, o negócio torna-se viavel. “A conta é tão alta e o desperdício tão grande que sanando as perdas o projeto se paga com a economia e ainda sobra um percentual significativo para o prédio, até a conclusão do contrato, quando os recursos economizados passam a ser em sua totalidade do condomínio”, assegura.

Sobre o serviço de manutenção ao longo de todo o contrato, o resultado, mais uma vez, é benéfico tanto para o cliente quanto para a empresa. “O que constatamos com o tempo é que, entregue o projeto, em três meses perdia-se toda a economia. As pessoas não estão ainda conscientes da necessidade de economizar, e mesmo os mais conscientes, chamam um bombeiro para sanar um vazamento ou mau funcionamento de uma válvula e ele não sabe lidar com as peças novas”, diz garantindo que com a manutenção própria economiza em peças e em visitas ao condomínio e em horas dos empregados.

Para o engenheiro Octávio, é preciso quebrar paradigma. Ter uma nova percepção de serviço, que associa qualidade e bom atendimento. “Essa reação de incredulidade está associada ao fato de que se espera que seja ruim, que não funcione. O cliente precisa ser exigente sempre, pois isto é bom para o mercado e para a qualidade de vida em sociedade”, conclui.