Entrevista

Entrevista – Ricardo Pereira de Mattos

Ricardo Pereira de Mattos é Engenheiro Eletricista, Mestre em Sistemas de Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho), autor do Blog O Endereço da Prevenção e também professor da Universidade Federal Fluminense e da Universidade Cândido Mendes. Com seu conhecimento e longa atuação na área de engenharia de segurança, ele credita à lei de autovistoria a atenção dada atualmente aos sistemas elétricos e de prevenção e combate a incêndio. Conhecedor dos efeitos que o tempo causa a estas instalações, recomenda aos síndicos aproveitar as vistorias para realizar as correções necessárias e garantir maior segurança, tranquilidade e conservação do patrimônio. Ricardo ressalta a relação idade média das edificações e o fato das instalações não serem aparentes como fatores que levam a um descuido com a manutenção, o que teria resultado em um aumento do número de incêndios causados por curto circuito, um sinal claro de instalações elétricas precárias.

LR – As instalações de combate a incêndio foram itens que apresentaram grande número de exigências nas autovistorias. Que itens compõem estas instalações, que problemas são mais frequentes e que riscos estes representam?

Ricardo Pereira de Mattos – Um sistema de proteção contra incêndio é composto de vários itens, dependendo das dimensões da edificação e de suas características: comercial, industrial, residencial etc. São desde extintores portáteis, passando por portas corta-fogo, escadas de emergência, rede de hidrantes e mangueiras, rede de sprinklers, reservatório para reserva técnica de incêndio, bombas e sistema elétrico de emergência, sistema de detecção e alarme. Um conjunto grande de equipamentos, proporcional às dimensões da edificação e sua utilização. Mas, muitas delas não passam por manutenções preventivas ou corretivas e isso é muito grave. Imagine tubulações embutidas nas paredes, e suas conexões, por anos a fio, sem inspeção, testes, substituições, enfim, abandonadas. Quando for preciso utilizá-las, e sempre em situação de emergência, elas estarão disponíveis com a qualidade, velocidade, eficácia, que se espera de qualquer sistema de emergência? É claro que não. Problemas como obstruções e vazamentos, que causam perda de pressão de água, mangueiras com testes vencidos e bombas que não funcionam são alguns dos problemas mais frequentes. E a consequência principal é a água não estar disponível para o combate ao incêndio, implicando no risco dele se alastrar de forma rápida e devastadora.

LR – E na parte elétrica? É sabido que a causa principal dos incêndios em edificações são os curtos circuitos que acontecem muito por superaquecimento, sobrecarga ou instalações incorretas de aparelhos de ar condicionado. Com as temperaturas mais altas, o que é preciso fazer para evitar riscos?

Ricardo Pereira de Mattos – Pense em um escritório dos anos 60. O que teria em termos de equipamentos elétricos? E hoje? Mas as edificações e instalações ainda são dos anos 60, 50 e até 40. Os incêndios com origem em instalações elétricas ocorrem em função do aquecimento excessivo de seus componentes, principalmente por acréscimo de equipamentos elétricos que não foram acompanhados por adequações dos circuitos e dos dispositivos de proteção. O dimensionamento da carga precisa ser avaliado, revisto, adequado, as fiações e disjuntores, toda a instalação exige vistorias e manutenção. E não apenas corretivas, mas preventiva principalmente. A revisão das instalações elétricas é um item fundamental para evitarmos acidentes graves, como é o caso do choque elétrico e dos incêndios. Uma regra simples é contratar profissionais qualificados para avaliar as instalações antes de instalar novos circuitos e equipamentos elétricos.

LR – Que medidas são emergenciais e quais cuidados precisam ser permanentes?

Ricardo Pereira de Mattos – Todo sistema complexo requer a existência de um plano de manutenção e de um responsável técnico por ele. Portanto, os sistemas de incêndio exigem esse tipo de cuidado e atenção. Deixar um sistema de incêndio sem um plano de manutenção significa expor as pessoas e o seu patrimônio a um risco elevado e desnecessário. A inspeção visual pode e deve ser feita por todos. Um treinamento básico nesse sentido, para os empregados do condomínio, é fundamental para se evitar surpresas desagradáveis caso ocorra um incêndio. Entre os itens a serem inspecionados visualmente, podemos mencionar, como exemplo, as caixas de mangueiras, onde se pode observar obstruções de acesso (móveis, caixas, armazenamento inadequado de materiais em seu interior), vazamentos nas conexões, ausência de mangueiras ou elementos rasgados, oxidados). É claro que essas inspeções visuais mais simples, que podem ser feitas até pelo síndico, não substituem as inspeções técnicas e os testes previstos nas normas.

LR – Além dessas instalações, que outros itens e ações sugere como especialista em segurança?

Ricardo Pereira de Mattos – Sem dúvida, um item que pode fazer a diferença é o treinamento das pessoas, sejam elas os empregados do condomínio, os moradores, locatários, trabalhadores das lojas e salas comerciais, enfim, a população que frequenta diariamente a edificação. É importante que conheçam o plano de emergência e que sejam treinados em seus procedimentos. São informações básicas, tais como o conhecimento da rota de fuga (escape), o significado da sinalização de emergência, o reconhecimento do alarme de incêndio (quando aplicável), quais os telefones de emergência, como comunicar falhas observadas, enfim, informações úteis cujo conhecimento e aplicação dará velocidade de resposta em uma emergência, seja para escapar com segurança, ou para o acionamento imediato do socorro. Uma maneira de verificar a eficácia do treinamento e do conhecimento requerido, é a realização de exercícios simulados, pelo menos uma vez ao ano.

LR – Como selecionar com segurança uma empresa para resolver problemas nas instalações de combate a incêndio?

Ricardo Pereira de Mattos – Há dois canais de informação que precisam ser conhecidos e utilizados. Um deles é o Corpo de Bombeiros. No portal da instituição, há uma relação de empresas credenciadas pelo seu Departamento Geral de Serviços Técnicos para projetos, instalação e manutenção. O outro é o Conselho Regional de Engenharia, CREA, onde pode ser verificada a habilitação de um profissional a ser contratado. Para instalações elétricas e de gás, elementos importantes na prevenção de incêndios, há empresas credenciadas junto ao SINDISTAL que podem servir de referência na hora de obter um orçamento. Uma orientação fundamental é a de que para qualquer serviço contratado nessa área deve ser exigida a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART). Ela é uma garantia que o serviço estará sob a responsabilidade técnica de um profissional habilitado.

LR – Outras dicas aos síndicos com relação a este tema?

Ricardo Pereira de Mattos – Ao síndico é depositado pelos proprietários a confiança, acompanhada da responsabilidade por uma gestão competente. Por isso, toda vez que se tratar de assunto técnico, ainda mais vinculado à segurança das pessoas e do seu patrimônio, é importante delegar a responsabilidade técnica a quem tem essa competência legal. Os síndicos devem aproveitar os meios de divulgação junto aos condôminos para mostrar esses investimentos e sua importância, além de “lembrar” a importância do assunto, divulgando reportagens sobre incêndios e seus impactos. No caso de sistemas de incêndio, a fiscalização é frágil, ou seja, devemos fazer o que é certo, não porque alguém vai nos multar, mas porque isso vai impactar as nossas vidas e o nosso patrimônio. Quem perdoará um síndico que deixou de fazer a manutenção de uma rede de hidrantes e no dia do incêndio não havia água disponível? A rede de incêndio é invisível aos leigos. Por isso, investir recursos do condomínio em sua manutenção é algo que não “aparece” no dia-a-dia, mas que é fundamental em um dia crítico que ninguém deseja que aconteça, mas que se vier devemos estar preparados.

Eu recomendo que os síndicos programem uma visita anual ao Quartel do Corpo de Bombeiros mais próximo. Se apresente, fale do seu condomínio, demonstre interesse no assunto, obtenha telefones de contato para dúvidas e esclarecimentos. O Corpo de Bombeiros é uma instituição respeitada e competente. Eles vão gostar de receber sua visita e quem sabe programar uma atividade, treinamento, simulado, enfim ajudar para que atuem de forma conjunta. Não se limite a saber apenas o telefone 193. Aproxime-se de quem trabalha por você.

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Informação para compartilhar

O especialista Ricardo Pereira de Mattos é membro da ABRACOPEL – Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade, cuja missão é conscientizar, através da informação e formação de profissionais, a população brasileira para os perigos que a eletricidade, quando mal utilizada, pode causar. Ricardo recomenda a Abracopel como uma fonte de consulta para as ações de segurança em instalações elétricas. “Suas orientações podem servir para serem compartilhadas com os moradores. Como exemplo, já podem utilizar a que segue”, conclui.

A Abracopel aconselha uma revisão nas instalações elétricas residenciais a cada 5 anos, no mínimo, sempre feita por um profissional capacitado. Fique atento e nunca sobrecarregue a rede com o uso de benjamins, ou extensões, ligando vários equipamentos em uma mesma tomada. A prática é uma das principais causas de aquecimento dos fios e de curto circuito que evoluem para um incêndio.