Entrevista

Entrevista: Osmar Pinto Júnior

Para-raios

Para enfrentar a estação campeã de descargas atmosféricas

O Brasil é o país líder mundial em incidência de raios e, segundo dados do Grupo de Eletricidade Atmosférica – ELAT, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, isto resulta em prejuízos anuais da ordem de um bilhão de reais. Isto mesmo depois de Benjamin Franklin ter sugerido, há dois séculos, proteger prédios e outras estruturas dos efeitos direitos dos relâmpagos por meio do uso de condutores, o que conhecemos hoje como sistema de proteção contra descargas atmosféricas (SPDA), ou para-raios. A falta do sistema ou de sua manutenção regular pode ocasionar danos e, estes, a responsabilização do síndico por negligência. O seguro do condomínio também pode ficar comprometido. Osmar Pinto Júnior, coordenador do ELAT/INPE, geofísico espacial e pesquisador destes fenômenos atmosféricos, fala da importância dos cuidados com estes equipamentos de proteção obrigatórios.

 

LOWNDES REPORT – O Brasil é, de fato, o país com maior incidência de raios?

OSMAR PINTO JÚNIOR – Sim. São, aproximadamente, 78 milhões de raios totais por ano, com maior volume no verão. E isto é devido ao Brasil ser o maior país tropical do Planeta.

 

LOWNDES REPORT – Um conhecimento maior sobre este fato, já bastante divulgado, trouxe maior conscientização para a proteção necessária?

OSMAR PINTO  JÚNIOR – Sim, tem melhorado, principalmente, nas áreas urbanas. Ainda assim há cerca de 100 mortes e 300 pessoas feridas por ano.

 

LOWNDES REPORT – De um modo geral, os para-raios funcionam quando necessário?

OSMAR PINTO JÚNIOR – Sim, eles funcionam. Mas seu nível de proteção não é 100%, dada as variabilidades do fenômeno.

 

LOWNDES  REPORT – O que isto quer  dizer?

OSMAR PINTO JÚNIOR – Quer dizer que os raios possuem uma variabilidade muito grande e que em certos casos os para-raios não são suficientes para proteger a edificação. É por isto que os estudamos. Conhecer melhor os relâmpagos que caem em determinadas regiões significa evitar prejuízos, como os causados por interrupções no fornecimento de energia elétrica. A cada estudo, novas descobertas e, com elas, mais e melhores formas de proteção. Hoje, já é possível aproveitar as ferragens do concreto armado dos edifícios, se elas estiverem bem amarradas entre si e se forem conectadas a elas pequenas hastes na cobertura do edifício, fazendo-as funcionar como uma gaiola de Faraday, pois, se um raio atingir as hastes, a corrente elétrica se confina às ferragens e vai diretamente para o solo. Mas são poucos ainda os edifícios construídos assim. Por isso a melhor forma de proteção contra os relâmpagos continua sendo o para-raios, inventado por Benjamin Franklin no século 18. A sua forma de atuação é simples: quando um raio atinge um edifício protegido, a descarga elétrica percorre o para-raio, atinge o sistema de cabos e segue até atingir o solo, onde se dissipa e perde a força. Com o para-raios, boa parte dos transtornos ocasionados por relâmpagos podem ser evitados. Prédios mais baixos e de áreas pequenas precisam de um único para-raios. Já edifícios mais altos costumam ter mais de um.

 

LOWNDES REPORT – Quais os potenciais danos sem esta proteção?

OSMAR PINTO JÚNIOR – Sem ela, ou com um sistema inadequado, ou desatualizado, o raio pode danificar a estrutura do edifício, com risco de queda de reboco, e percorrer as instalações elétricas, com danos a equipamentos e componentes, como placa do elevador, portões elétricos, CFTV, entre outros ligados na tomada no momento da descarga. Eles ainda podem pôr em risco os condôminos no momento da queda do raio, pois há a possibilidade de tomarem choques se manusearem eletrônicos ligados na tomada, como celulares carregando. Resta acrescentar que, nestes casos, o síndico pode ser responsabilizado civil e criminalmente se ficar comprovada sua negligência ao não providenciar a correta manutenção dos equipamentos do condomínio. E nos casos onde for comprovado que o SPDA estava fora dos parâmetros legais, a seguradora pode se negar a pagar a indenização ao condomínio.

 

LOWNDES REPORT – O que os gestores de condomínios devem saber sobre o assunto e onde encontrar informações relevantes?

OSMAR PINTO JÚNIOR – Não há orientações específicas para condomínios, mas sim orientações gerais. No site ELAT (www.inpe.br/elat/) há todo um conjunto de informações sobre os diferentes aspectos da questão e como as pessoas devem fazer para se proteger.

Especificamente para condomínios, é fundamental que a empresa que o atende trabalhe sempre com base na NBR 5419. Ela foi atualizada em 2015, quando passou a orientar para uma vistoria visual do equipamento a cada seis meses. Houve ainda uma alteração no número de descidas que conduzem a energia elétrica para as áreas mais baixas da edificação, que antes eram de 20 metros e passaram para 15 metros para os prédios residenciais. A norma também passou a orientar para a instalação de um Dispositivo Protetor de Surto – DPS em todos os quadros elétricos de suas áreas comuns. Com ele, equipamentos como interfones, iluminação de emergência, circuitos fechado de TV e dos elevadores, entre outros, ficam protegidos.

As unidades também podem instalar o DPS para proteger seus equipamentos. É importantíssimo adequar o sistema à norma vigente. E, havendo a incidência direta de uma descarga atmosférica no edifício, deve-se verificar todo o sistema em seguida. Nestas situações não se deve esperar pela data da próxima vistoria.

 

LOWNDES  REPORT – Isto implica estar atento à seleção da empresa que faz a manutenção dos sistemas de proteção. O que cobrar destas empresas para garantir o bom funcionamento do sistema e a segurança do edifício, sua estrutura, seus ocupantes e equipamentos?

OSMAR PINTO JÚNIOR – O mais importante é que o condomínio contrate uma empresa que conte com um engenheiro eletricista, que é quem assinará a Anotação de Responsabilidade Técnica – ART. A empresa também deverá fornecer um laudo, após visita de testes em todo o sistema. Este deve atestar que o edifício está de acordo com a norma da ABNT. Isso porque a responsabilidade sobre o sistema, em caso de sinistro, é do engenheiro eletricista que assinou a ART. Sem ele, será do síndico, isoladamente, esta responsabilidade. Este laudo é importante ainda pois é ele que o Corpo de Bombeiros averiguará na inspeção do Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros – AVCB. Só para constar, está no artigo 168, do Código de Segurança Contra Incêndio e Pânico, a determinação de que o Corpo de Bombeiros exija para-raios em edificações com mais de 1500 m² de área construída e em toda edificação com mais de 30 metros de altura.

 

ESTUDOS PARA AUMENTAR A PROTEÇÃO

O ELAT/INPE dispõe de um serviço de previsão de ocorrência de raios com 24 horas de antecedência. O sistema foi desenvolvido por uma equipe multidisciplinar de físicos, matemáticos, geógrafos, engenheiros e técnicos de computação do Grupo de Eletricidade Atmosférica (ELAT) da instituição.

Há três anos, o Grupo também começou a estudar os raios ascendentes que, por acontecerem sempre no mesmo lugar, produzem maior estresse nas estruturas. As investigações descobriram, por exemplo, que, em algumas tempestades, 60% dos raios que atingem a Região Sudeste, em alguns dias do verão, têm carga positiva, enquanto que 90% dos raios do mundo têm carga negativa. A informação é importante, pois os raios positivos são os mais destrutivos. Isto porque neles a corrente elétrica contínua — a que persiste até o relâmpago acabar — dura centenas de milésimos de segundo, enquanto que nos negativos a corrente dura, em geral, um tempo menor. E, enquanto o raio negativo carrega uma corrente contínua de 100 a 200 ampères (o ampère é a unidade de intensidade da corrente elétrica), o positivo carrega mais de 1.000 ampères. Para se ter uma ideia, esta energia é suficiente para alimentar vinte fornos elétricos domésticos.

A equipe também já conseguiu fazer um registro inédito, com a ajuda de uma supercâmera lenta. Nas imagens, raios normais caem das nuvens. Mas, antes de chegarem ao solo, outros dois saem de para-raios que estão em cima dos prédios e vão em direção aos primeiros. Ao se encontrarem com os raios descendentes, tudo vira um risco de luz no céu até desaparecer. O que se pode ver é o perfeito funcionamento dos para-raios. A expectativa é de que os resultados desses estudos sirvam para ajudar a aumentar a proteção proporcionada pelos equipamentos.