Porteiros

Mulher, mãe, amiga e porteira

O Edifício Albert Sabin, no Maracanã, conta há nove anos com um profissional de portaria do sexo feminino, algo ainda raro, apesar da satisfação que as administrações expressam depois de passar pela experiência. Eliene Pereira Sena tem o pleno aval da síndica, Francisca de Assis, que diz que a porteira a fez repensar o perfil ideal para uma vaga disponível em outro condomínio que administra. “É a minha primeira vez, apesar de já ter sido síndica várias vezes, e estou gostando muito. A mulher é múltipla, em tudo sendo um pouco mãe, e tem essa dedicação diferente, mais atenta e comprometida”, elogia.

Além de ser capaz de atender a múltiplas demandas, Eliene ainda tem iniciativa, outra característica considerada pela síndica. Antes de trabalhar como porteira, ela foi faxineira do prédio por sete anos e, depois de um período em que vários porteiros se sucederam sem que ninguém ficasse, se ofereceu para ocupar a vaga. Quem administrava o prédio na ocasião aprovou, assim como os demais moradores. A vivência há tanto tempo no edifício, a facilidade de comunicação e o bom relacionamento com todos ajudaram na decisão e no sucesso que rapidamente alcançou na nova função. “É como uma grande família. Quando ocupei o cargo já entendia desta forma o condomínio e os seus moradores”, conta.

Antes de completar 18 anos, Eliene veio conhecer o Rio, onde sete irmãos já moravam. Nascida no interior do Ceará e muito apegada à família, acabou ficando para cuidar do filho recém-nascido de um irmão que trabalhava no Albert Sabin. Foi a síndica que perguntou se não gostaria de trabalhar como faxineira para o condomínio. “Fiquei muito feliz porque seria meu primeiro emprego, e com carteira assinada, a oportunidade de ter uma renda só minha”, lembra, completando que acha que foi a falta de casa que a fez voltar-se mais para o prédio. “Acho que foi esta saudade que me aproximou de todos. Eles sabem que estou junto deles, pronta para o que for preciso, e isto sempre foi considerado como algo positivo”, avalia.

Relação de afeto é recíproca

Mas o serviço na portaria mudou a sua rotina no condomínio. Mais restrita à portaria, perdeu o tempo de conversa nos corredores com as “senhorinhas”, como chama, enquanto fazia a faxina. “O tempo ficou mais curto. A portaria exige presença, muita atenção”, destaca. Mas o carinho foi mantido.

O condomínio tem apenas dois funcionários, a Eliene e o faxineiro, e não há relação de subordinação entre eles. A síndica coordena o trabalho que, por experiência de ambos, não exige muito da administração. Segundo a porteira, o conhecimento sobre as tarefas e cumprimento das responsabilidades de cada um, faz com que os dias corram tranquilos, com o tempo passando rápido e sem atropelos. “São 18 famílias, de gente muito boa, e com isso temos um ambiente de muita paz, graças a Deus”, comenta.

De tão querida, é convidada para as festas na casa dos moradores, entre os quais tem uma comadre. Eliene teve o filho único, Douglas, hoje com 12 anos, no prédio e uma moradora o batizou. “Ela praticamente o adotou e tem me ajudado muito na criação dele. Não é todo mundo que faz isso e para mim tem sido um motivo de uma segurança muito grande, pois posso dedicar-me ao trabalho sabendo que está bem cuidado, recebendo atenção e afeto”, afirma.

Dica para os colegas

Com base em sua experiência bem-sucedida, a porteira diz para os colegas, e para quem mais se interesse por trabalhar em portaria, que se aperfeiçoem. “É a única coisa que lamento, não ter um curso específico na minha área de atuação. O mundo atual exige isso”, aconselha, acrescentando que o fundamental mesmo é ter jeito para lidar com pessoas. “É preciso saber levar as diferenças e os humores que fazem parte de todo ser humano, se colocando no lugar do outro como se fosse um irmão, ver a todos como mais um da família. Este cuidado é o que faz a diferença e permite que problemas sejam superados”, orienta.

Eliene elogia a síndica e a administradora, dizendo que o trabalho dela não seria a mesma coisa sem o ambiente amigável e de confiança mútua que eles proporcionam. “Quando todos trabalham pelo bem comum, fica muito mais fácil. As coisas acontecem sem maiores esforços”, destaca.

A porteira não acredita que existam tão poucas mulheres ocupando este cargo, que considera excelente para quem, segundo ela, já veio ao mundo programada para cuidar. E Eliene não dedica seus cuidados apenas às pessoas, ou ao prédio. As plantas do jardim da portaria são um hobby para ela, que nas horas de lazer reluta em sair de casa. “Quando saio é para namorar um pouco, andar de bicicleta com meu filho, na ciclovia do Maracanã, ou ir com ele à praia. O que gosto de verdade é estar com aqueles que me são queridos e isso tenho aqui mesmo, não preciso nem sair de casa”, conclui.