Porteiros

ORGULHO DE SER A PRIMEIRA

Elizângela Pereira Gomes é a porteira-chefe do Edifício Esplanada, no Centro, cargo conquistado há dois meses, depois de passar sete meses na função de porteira, mais cinco anos como zeladora. É a primeira mulher a trabalhar como porteiro no edifício, de 80 anos, e a administração, condôminos e visitantes, e a própria Elizangela, aprovaram a novidade. “Já tinha sido convidada para o cargo na gestão anterior, mas recusei porque não queria trabalhar aos sábados. Quando a atual subsíndica ofereceu o cargo, achei que a oportunidade poderia não aparecer de novo e aceitei. O maior desafio seria lidar com os colegas, todos homens e há mais tempo no prédio. Além, é claro, dos outros tantos que chegam ao prédio, prestadores de serviço, carteiros etc. Como me fazer respeitar?”, conta.

O síndico Renato Neves Tonini, destaca a tranquilidade e a educação de Elizângela e diz que quer seguir contando com o trabalho dela. “Ela tem a nossa confiança e sabemos que tem todas as condições para exercer bem a função. Esperamos que tenha sempre sucesso no novo cargo”, enseja.

Com o reconhecimento e a receptividade, além das primeiras experiências, a porteira já lamenta ter recusado o cargo no passado. “É um trabalho que envolve ajuda mútua, há muita solidariedade, e não só entre os colegas. Você está sempre prestando ou buscando informação, ajudando e sendo ajudada. No final, gostei tanto da função que se pudesse voltar no tempo teria aceito antes”, afirma.

Tranquilidade e simpatia

No edifício comercial, com escritórios, um consulado e uma agência de empregos, entre outros, a dinâmica do trabalho é intensa. Do balcão, em semicírculo, ela fica atenta a quem chega, quando aproveita para entregar uma correspondência para um condômino, ou outro, de olho no elevador para segurar um pouco para que um a mais entre, ou impedir que o limite máximo de pessoas por viagem seja desrespeitado, atenta ainda às câmeras para saber se quem pediu um andar foi mesmo para lá. Isto, ao mesmo tempo em que responde às perguntas de quem chega, muitas vezes, sem saber para onde vai. O telefone e o interfone também não param. Mas, o sorriso, a fala tranquila e o ouvido atento de Elizângela, responsáveis pela admiração que a porteira-chefe desperta, seguem impassíveis. “A mulher tem esta facilidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo”, diz.

O expediente vai das 6h às 14h20 e para conseguir chegar na hora, saindo de Queimados, onde mora, tem que pular da cama às 3h30 da madrugada. “Tem que ser muito determinada, mas isto eu sou”, afirma.

Sobre o relacionamento com os colegas de trabalho, ela conta que a resistência inicial foi superada com muito diálogo e que em seu trabalho de coordenação da equipe não precisa nem mandar: “Não há criança aqui e todos sabem de sua responsabilidade. Como em um time, cada um faz o seu, mas todos querendo o reconhecimento por um trabalho bem feito. O meu papel é o de manter o espírito de equipe, o entendimento de que um sozinho não pode dar conta de todo o prédio. É preciso que estejamos todos juntos para que tudo funcione da melhor forma”, defende.

Mãe de três filhos, um de 21, outro de 19 e um temporão de 8 anos, ganhou a primeira neta na mesma época da promoção e é só alegria. O filho menor ainda reclama sua presença e quando chega em casa quer que brinque com ele. Reclama pelo fato de que todos os amiguinhos vão para a escola com suas mães, só ele vai com o pai. É por isso que, trabalhando de segunda a sábado, o domingo é inteiro da família. Ela faz questão de elogiar o marido, Sebastião, que é portador de uma doença crônica e não pode mais trabalhar fora. “Tenho esta sorte de contar com a ajuda dele. Desde levar o pequeno à escola, até preparar o jantar, quando chego muito cansada e preciso dormir um pouco. Ele sempre me deu todo o apoio. Estamos satisfeitos com o novo cargo e ele está tão orgulhoso quanto eu”, completa.

Aprender sempre mais

Elizângela fez o curso de qualidade nos serviços de portaria e diz que ele foi de extrema importância para que se sentisse mais segura na função. “Me permitiu entender melhor o trabalho e esclareceu muitas dúvidas que tinha antes. Quero seguir me aprimorando”, afirma. Ela quer fazer o curso de primeiros socorros e reclama um de noções básicas de elétrica e hidráulica, específico para mulheres. “Para os homens é mais fácil. Geralmente, já entendem um pouco do assunto. Eu quero poder responder a um condômino explicando o que aconteceu, o que pode ter acontecido, assim como quem trabalha com isso faz”, diz.

Para quem pensa em trabalhar em portaria, ela aconselha saber se portar, falar e ter tranquilidade para lidar com todo tipo de pessoa. Ser uma pessoa dinâmica, ter responsabilidade e compromisso são outras orientações da chefe de portaria. “É preciso também ser simpática, atenciosa e se preparar, buscar conhecer tudo o que está envolvido com o trabalho em um edifício. Para Elizângela, lidar com o público é o maior desafio e também a maior das compensações. “Se a pessoa gosta de conhecer gente nova, fazer novas amizades, trocar experiência, esta é uma ótima profissão”, afirma.

O prazer de conhecer faz com que aproveite o horário de almoço para ir até os pontos turísticos da cidade, quando leva sempre um celular para tirar dúvidas e não se perder. Da mesma forma, ela aproveita todo contato com as pessoas para buscar saber mais sobre tudo. “Faz com que a gente entenda que estamos todos juntos. Um entregador, os carteiros, o pessoal que está sempre aqui e outros que estão só de passagem. Esta convivência faz com que a gente entenda que tanto o trabalho deles depende da gente, quanto o da gente depende deles”, diz.

Ela se emociona com os elogios e diz que ser a primeira mulher a trabalhar no prédio, e fazer o seu trabalho bem feito, é uma honra. “Sou muito grata pela oportunidade, pela confiança que depositaram em mim. O que posso dizer é que tenham a certeza de farei sempre o melhor para que este reconhecimento seja sempre justo”, conclui.