Porteiros

Postura profissional para vencer adversidades

Era 1982 quando Josemar Ferreira Tavares começou a trabalhar no Edifício Lowndes II, no Centro. Ele era entregador há cinco anos e já tinha feito amizade com o porteiro do prédio, que o convidou para uma vaga de ascensorista. Com o passar do tempo, o porteiro percebeu que aquele jovem de 20 anos tinha maturidade e responsabilidade, sendo melhor opção para auxiliá-lo. Josemar mal começou na nova função e o porteiro faleceu. Sem conhecimento, com a responsabilidade de cuidar da portaria e do prédio, e ainda de ocupar a vaga de um profissional com 40 anos de trabalho ali, teve que superar medo, insegurança e mostrar que era capaz.

Hoje, 34 anos depois, ele ainda lembra daqueles tempos como o maior desafio de sua história de trabalho. “Não houve tempo sequer para ele me passar tudo o que eu precisava saber sobre o serviço. Fiquei seis meses sozinho, jovem e inexperiente. Não fosse a compreensão dos condôminos e o apoio da síndica e da administradora, seria mais difícil. No final, foi uma experiência que me fortaleceu, me deu segurança”, lembra.

Ao longo de todo este tempo ele passou por outros momentos em que pode reforçar o seu sentimento de que encontrou o trabalho que queria e tem habilidade para executá-lo. Em uma época que faltava água na rua e, muitas vezes, era preciso recorrer a carros pipa, teve jogo de cintura para lidar com a situação. “Imagine em um prédio comercial o condômino chegar numa segunda-feira e saber que começaria o dia sem água. É preciso cuidado para falar e expor o que está acontecendo para ser compreendido”, destaca.

A experiência serviu para ajudá-lo em outro momento também difícil, quando o prédio adotou um controle de acesso. “Houve uma época em que não tínhamos esta preocupação com a segurança, como temos hoje. Mas quando começaram os primeiros assaltos conhecidos como saidinha de banco, todo o processo para entrar no prédio mudou e era preciso pedir paciência, fazer com que compreendessem que as novas regras eram para o bem de todos. E aqui é complicado, uma rua estreita, quase sem calçada, é fácil para um malandro atacar alguém aqui”, explica.

Dia a dia tranquilo com organização

A rotina do porteiro chefe começa cedo, uma hora antes do prédio abrir, para que possa percorrer todos os andares, ver se está tudo certo e preparar o que precisar para, só depois, ocupar o lugar na portaria onde controla o acesso dos condôminos e seus empregados, recebe entregadores e prestadores de serviços e mantém tudo em ordem.

Hoje temos uma tranquilidade grande porque criamos uma organização de trabalho que faz a rotina fluir, pois item a item tudo é verificado diariamente para evitar que chegue a dar problemas”, afirma.

A representante da síndica, Simone Ramos, é só elogios ao porteiro chefe. “Nestes 14 anos que trabalho com ele nunca tive motivos para dizer nada em contrário. É educado, discreto, tem iniciativa e uma boa postura no atendimento aos condôminos. Uma coisa que gosto, e me ajuda muito, é o feedback que dá sobre tudo o que acontece no prédio”, enaltece. O fato de Josemar conhecer cada palmo do edifício é outro fator que a síndica faz questão de destacar como um aliado. “Ele tem este conhecimento e além disto é muito atento aos cuidados cotidianos que o condomínio exige, o que é ótimo”, completa.

Josemar é casado tem um casal de filhos maiores de idade, mas ainda sem filhos, e diz que até prefere não ter netos agora, pois acha que é preciso esperar a crise passar. Caseiro, aproveita as horas livres para cuidar da casa ou assistir a um futebol na TV. Quando perguntado, orienta que a profissão de porteiro não é o que se pensa. “Muita gente pensa que é fácil. É chegar, sentar e esperar as horas passarem. Mas é um trabalho mental e físico. Requer habilidades diferentes e, especialmente, paciência e bom relacionamento com todo tipo de pessoa, sabendo que não dá para agradar a todos o tempo todo, mas que acima de tudo deve imperar o respeito. Fazer o outro entender que respeitar as regras é seu trabalho e para o seu próprio bem não é nada simples, afirma.

O porteiro destaca ainda que é preciso primeiro saber se é isto mesmo o que se quer. Se será capaz de ser responsável e confiável como a função exige, pois o dia a dia é cheio de responsabilidades. “Mas, se for bom funcionário, esta é uma boa profissão”, conclui.