Deu certo

REFORMA ESPETACULAR

Energia de uma criança, paixão de uma adolescente e a maturidade de quem aprendeu, na prática, a administrar um condomínio. Assim se descreve a síndica Ana Lúcia Pires Ferreira Fortes, que vem colaborando na gestão de condomínios há 16 anos. No atual, eleita e reeleita por seis vezes consecutivas, é a responsável pelas obras que mudaram radicalmente o Condomínio Maria dos Anjos, no Flamengo. Ela imaginou um prédio que fizesse frente à beleza de um dos cartões postais mais bonitos do Rio, o Parque do Flamengo, e mudou tudo.

A transformação da fachada foi tão grande que fez parecer que o endereço havia sumido da rua e surgido ali outro prédio. A criação de uma rampa de acessibilidade, de perfeição técnica e beleza arquitetônica, elogiada pelo Crea-RJ, pela Prefeitura e por socorristas do Samu, tudo integrado e com identidade visual desde o projeto até os acabamentos. Nas partes comuns, não fez por menos. Criou mais 10 vagas para automóveis, ambientes mais amplos, integração de áreas, um bicicletário maior, mais dois banheiros, novas jardineiras, novos e maiores espaços para os empregados.

O resultado é um imóvel com aparência moderna, organizado e funcional, oferecendo conforto interno e visão externa, ao permitir trazer a beleza do Aterro do Flamengo para dentro do prédio. Nas paredes que dão para fora, vidro cristal e tijolos de vidro, nas internas, obras de arte exclusivas. Um dos quadros reúne Pão de Açúcar e Cristo Redentor. O outro, centenas de borboletas que voam para diferentes direções, cercadas por uma moldura. Ana Lucia explica que as borboletas representam os condôminos, que têm a liberdade de ir e vir, e usufruir do seu imóvel. A moldura representa o condomínio, com suas regras e Convenção. “Eles podem tudo, desde que respeitem os limites deste espaço”, traduz a síndica, que foi até Tiradentes, em Minas Gerais, encomendá-los. “Os quadros, assim como os móveis novos da portaria, custaram muito menos do que se fossem comprados aqui, no Rio. E todos eles são confeccionados em madeira de demolição, feito por artesãos, um trabalho realmente diferenciado”, completa.

O impacto é enorme, parece uma mágica e quem vê se pergunta, o que aconteceu? Os vizinhos já tentam acompanhar a renovação do Maria dos Anjos, que passou a ser considerado o condomínio residencial mais bonito da Praia do Flamengo. Mas não apenas pela beleza. Os imóveis ali tiveram valorização acima de 30%.

Conhecimento de arquitetura e decoração fizeram a diferença

O maior deles foi resultado da transformação de uma área antes ociosa na solução de um problema que só fazia aumentar a cada ano. Devido ao formato da garagem e a quantidade de carros maiores, toda vez que precisava manobrar um automóvel para a saída de outro tinham que deslocar oito para a rua. “Era uma loucura porque a guarda municipal vinha e multava, e o condomínio tinha que assumir e pagar”, conta a síndica. Mediu e remediu, propôs a realocação da moradia do porteiro chefe e o aproveitamento do espaço para ganhar novas vagas. Alguns moradores foram contra porque, como aquela era também uma área de ventilação para os apartamentos, temiam que o escapamento dos veículos fosse levado para cima. Ana Lucia garantiu que a criação de uma passagem, feita em gesso acartonado, faria o ar circular naturalmente de fora para a área interna. E assim foi feito. “Ele entra limpo e com uma velocidade que todos adoraram. Hoje até agradecem porque as roupas do varal secam mais rápido”, brinca, acrescentando que dispor de mais 10 vagas não levou a ganhos com aluguel ou venda. “Com a modificação, a gente remaneja os carros com facilidade. Foi tão bem aceita que alguns condôminos se anteciparam preferindo usar agora a nova garagem”, conta.

Esta dedicação e o conhecimento de arquitetura e decoração, apesar de ser advogada atuante, fizeram toda a diferença. Foi ela quem pensou em todas as soluções para cada ambiente. Na escada da portaria social, que é toda em mármore, sugeriu um corte, criando uma espécie de tabeira, uma borda.

Acompanhamento constante garantiu custos menores e melhor resultado

Com as mudanças, trocou o local onde fica o balcão de trabalho do porteiro, abrindo um caminho da porta principal para todas as outras áreas internas. Adotou uma porta pivotante, em madeira de demolição, que dá passagem para a área de serviço, sem deixar ver o seu interior, e ainda garante ventilação constante para os porteiros. “Antes, os visitantes que iam para a coluna três achavam que seguiam para a área de serviço. Com a modificação, conseguimos integrar tudo em um só ambiente”, acrescenta.

Foi o maior sucesso! Os moradores também adoraram a criação de um chuveirão e lava pés. Afinal, o condomínio fica em frente à praia. O local ganhou ainda uma jardineira, um bicicletário maior e com teto de vidro cristal, como os da portaria, que trouxe claridade ao ambiente e ainda é autolimpante.

No corredor, onde ficava a antiga moradia do porteiro chefe, foi criado um lavabo para os condôminos e convidados, sugestão de um morador que é engenheiro, agradece Ana Lúcia. Também foi adquirido um bebedouro para a área de serviço, no mesmo modelo dos aeroportos. E parte da lixeira, que antes ficava dentro da casa do porteiro, hoje fica ao lado do elevador de serviço, totalmente modernizado.

Agora a casa do porteiro, que antes era no meio da garagem, local escuro e sem ventilação, tem dois quartos, cozinha, banheiro e área de serviço, tudo compacto, mas bem distribuído, feito com acabamento de primeira e janelas que possibilitam uma ventilação cruzada – para a rua e para a área interna. “A esposa dele contou que a vida mudou muito depois da obra, e que, às vezes, sente até frio, mesmo sem ligar o ventilador”, relata a síndica.

Desde as primeiras obras empreendidas, a substituição dos tijolos vazados dos corredores que deixavam passar a água da chuva, a criação da rampa, a reforma da fachada, tudo foi feito com o mesmo capricho e com materiais de qualidade. Em paralelo, adquiriu novo para-raios, trocou a fiação elétrica e as tubulações de água e gás.

Antes o prédio sequer tinha nome na fachada. A síndica mandou fazer letras em aço e destacou, com iluminação definida, permitindo que até mesmo quem passa do outro lado da pista do aterro consiga ler. Para completar, contratou um calceteiro para aumentar a faixa de pedras portuguesas pretas que margeiam o prédio, destacando ainda mais o branco e cinza da nova fachada. Na época, também mobilizou os moradores para trocarem suas janelas, o que contribuiu para um melhor resultado geral.

Contratempos superados

Toda obra de grande porte tem seus infortúnios e Ana Lucia também enfrentou problemas. “Foram 54 mil reais de porcelanato que deixaram de ser entregues. O dinheiro era a conta, tudo planejado e a obra esperava apenas os acabamentos para ser concluída”, lembra, acrescentando que foi preciso suspender o pagamento e entrar na Justiça contra a empresa. Como se não bastasse, a loja transferiu para terceiros(factoring), levando tanto o condomínio quanto a síndica a ficaram com o nome negativado. “Os advogados já entraram em juízo requerendo que limpem o nosso nome. Vocês imaginam uma advogada com o nome sujo pela primeira vez na vida?”, reclama. Desde então, não para de receber ligação de cobrança a qualquer hora do dia ou da noite. E logo ela, que preza tanto por fazer tudo correto, legalizado e com autorização da prefeitura.

Todas as obras foram muito negociadas, a cada centavo, fosse para um mármore, o envelopamento das portas dos elevadores, o cimento e até a areia. “Eu sou uma síndica chata, vejo cada detalhe e se não está bom mando fazer de novo”, diz. Foram muitas as discussões diretamente com fabricantes. “Na cidade de Tiradentes, onde fui comprar móveis e objetos de decoração, o vendedor se surpreendeu por ver tanto empenho de uma síndica. Respondi que por ser dinheiro dos outros é que estava tendo tanto cuidado. O País está passando por um momento especial e acredito que cabe a cada um de nós essa mudança. Não basta criticarmos, temos que dar exemplos”, completa.

Foi um trabalho árduo, de dedicação e negociações sem fim e que, sem o apoio dos conselheiros, dos empregados do prédio e dos condôminos, não teria conseguido chegar ao final, e com resultado tão positivo. Como bem disse Henry Ford: Unir-se é um bom começo, manter a união é um progresso e trabalhar em conjunto é a vitória”, conclui.