Capa

Um Novo Rio

O legado das Olimpíadas Rio 2016 e a participação dos condomínios

Não existe esforço maior de logística em tempo de paz do que aquele exigido para uma olimpíada”. O comentário de Leonardo Maciel, diretor de Operações da Cidade, deixa claro o envolvimento necessário de todo carioca para que os Jogos Olímpicos Rio 2016 sejam um sucesso. Todas as cidades que sediaram as Olimpíadas passaram por transformações e tiveram forte impacto em sua rotina. E o fato desta ser a primeira cidade da América Latina a recebê-lo dá uma pista do quanto é mais difícil para nós. Então, não. Não será como aconteceu em Atlanta, nos EUA, nem em Sidney, na Austrália, ou em Barcelona, na Espanha. Superando dificuldades estruturais e de administração pública, será realizado no Rio com o que pudermos fazer de melhor. A exemplo do que o mundo já pode ver, do Carnaval Carioca, do Reveillon ou da Jornada da Juventude, este evento também será tanto melhor quanto maior for a participação da população.

Se os maiores transtornos começam a ficar para trás conforme as obras estão sendo entregues, já a partir de julho, os cariocas verão a diminuição do volume de caminhões e equipamentos circulando, obras e serviços de reparo em vias públicas e obras emergenciais e de manutenção nas edificações em geral, sendo proibidas. Com um mês, pelo menos, de antecedência, haverá a redução do número de vagas e a proibição de estacionamento em vários pontos, além da restrição de carga e descarga. E isto mesmo para os serviços básicos, como os de coleta de lixo domiciliar. “Os Jogos acontecerão em áreas densamente habitadas e nada disso poderá ser evitado. É por isso que, por exemplo, os caminhões da Comlurb terão um esquema especial para toda a cidade e mais restrito ainda para o entorno das arenas. Será preciso replanejar uma série de operações para reduzir o impacto, e nos adaptar”, adianta Leonardo Maciel.

Para toda a população, a orientação é para a redução de 40% dos deslocamentos na cidade. As férias escolares foram replanejadas, assim como as empresas receberam a recomendação de escalonar horários, colocar seus funcionários em férias coletivas ou trabalhando em casa. A organização do evento também pede que incentivem o uso de bicicletas, de caronas e do transporte público para se locomoverem. “Este é um projeto de cidade, se o cidadão não participar, fracassaremos e isto é o que não queremos”, afirma.

E tudo está sendo feito para minimizar os impactos. Foram criadas faixas olímpicas e o Cartão de Transporte Olímpico. Uma medida que se repete em todas as cidades que sediam os Jogos desde as Olimpíadas de Atlanta, quando a inexistência de vias dedicadas fez com que vários atletas, árbitros e técnicos chegassem atrasados às competições. Serão implantadas três modalidades – faixas olímpicas dedicadas, prioritárias e compartilhadas. Algumas experiências, já começam em abril, para dar tempo de avaliar e promover ajustes.

Síndicos experientes estão otimistas

Grandes eventos são, no final, benéficos. Antes do Rock in Rio, isto aqui era um pântano. E olha o que temos hoje”, estima Xisto Mattos, Presidente da Conselho Comunitário do Condomínio Rio 2 – AMORIO2, onde 18 mil pessoas já adquiriram experiência com grandes eventos. É por isso que ele diz não estar nem um pouco preocupado com o Rio 2016, apesar de estar localizado em um dos principais centros nervosos dos Jogos. “Estamos em contato constante com o subprefeito da região, temos buscado orientações junto à secretaria de transportes, mas estamos tranquilos. Os obstáculos são criados para quem não é morador”, afirma, destacando ainda o aumento da segurança do entorno no período. “São épocas que temos toda a atenção e tratamento vip”, brinca Mattos.

Mas a administração está fazendo a sua parte e já programou campanhas de orientação aos moradores. “A nossa função social é a de contribuir com o poder publico. Somos 41 prédios, uma frota de veículos expressiva e temos consciência de nosso papel. Durante os Jogos Panamericanos, por exemplo, fizemos até rodízio de carros, como é feito em São Paulo, mas isto não implicou em qualquer problema. O trabalho maior ficou por conta de conscientizar para que não utilizem as credenciais para terceiros, para nossa própria segurança. E isto já estamos fazendo também para as Olimpíadas”, adianta.

Outro que também tem grande experiência com grandes eventos no entorno é o síndico José Carvalho, do Condomínio do Edifício Ribeiro Moreira, na esquina da Praça do Lido com Avenida Atlântica, em Copacabana. “Pela projeção que a cidade terá, temos que somar. Cria certos transtornos? Cria. Mas os benefícios são maiores”, afirma. Para Carvalho, o Rio foi muito beneficiado ao ser eleita a cidade sede, a despeito do que muitos pensam. “Em 2010 eram 19 mil quartos, para os Jogos teremos quase 43 mil. É um fator impulsionador”, diz.

O síndico cobra ações do dia a dia, destacando a área do Porto, antes muito degradada porque esquecida pelo poder público. “Se as manutenções necessárias forem feitas, já faremos bonito”, afirma. Ele lembra o caso de uma tampa de bueiro que levou meses para ser trocada em plano calçadão da Avenida Atlântica, bem perto do Copacabana Palace. Ou ainda uma instalação de água pluvial entupida, vazando água com cheiro ruim também nas imediações. “O maior benefício será se conseguirmos encantar o mundo, pois de nada adianta ter uma casa bonita, cobiçada para visitação, se o dono tratar mal os visitantes. E, é claro, tudo tem que funcionar o tempo todo e não só para os turistas. Este sim é o impacto que esperamos ver”, completa.

Esta é a mesma expectativa de Adonai Carneiro, Coordenador Técnico e Patrimonial do Centro Empresarial Internacional Rio – RB1, na Avenida Rio Branco, número 1, que viu surgir, “de camarote”, o Porto Maravilha, que engloba a nova Praça Mauá, o próprio Porto, o MAR e o Museu do Amanhã, além da abertura de vias e túneis e o VLT. “O grande volume de obras realizadas tanto no entorno como em toda a região central da Cidade, tem dificultado o acesso dos usuários, exigindo da administração manter contato permanente com a Concessionária para obter informações sobre eventuais mudanças e interrupções no trânsito, para divulgarmos previamente nos diversos canais de comunicação que dispomos”, detalha Carneiro.

A área receberá uma circulação ainda maior de pessoas ao longo dos Jogos por conta do Pólo do Amanhã, que será montado no local para a realização de shows, transmissão das competições e queima de fogos. Mas o condomínio está preparado. “Desde a abertura do MAR, ainda com a Praça bloqueada, a frequência de pessoas vem aumentando em quantidade e qualidade. Há mais estudantes e jovens, além de turistas nacionais e estrangeiros. Como a inauguração da Nova Praça Mauá e do Museu do Amanhã coincidiram com as férias escolares, observamos um fluxo sem precedentes de pessoas, o que alterou a rotina do prédio, especialmente quanto à segurança e ao estacionamento. Então, estamos nos adaptando aos poucos”, conta, acrescentando que o Edifício foi criado por investidores que acreditaram na revitalização do local. “Temos as melhores expectativas. O maior legado será, finalmente, estar inseridos no contexto para o qual o RB1 foi idealizado”, comemora, ensejando apenas que os cidadãos se “apoderem” das novas áreas, usando devidamente e zelando por elas. “Isso será determinante para que, de fato, fiquem como legado para a população”, completa.

Legado de peso

Para se tornar a primeira cidade olímpica da América do Sul e fazer bonito entre os dias 5 agosto e 18 de setembro – quando começam as Olimpíadas e terminam as Paralimpíadas –, o Rio passa por uma renovação urbana, como há décadas não se via. Pesados investimentos para além da construção de centros esportivos foram feitos também em mobilidade, meio ambiente, reformas e desenvolvimento social. Barra da Tijuca, Deodoro, Maracanã e Copacabana, receberão competições que ocuparão 32 arenas. Muitas das áreas de entorno destes locais, e acessos, passaram por alguma intervenção. Há desde a construção de uma via que atravessa a principal avenida do centro da cidade e vai até o Santos Dumont, a projetos de transporte que incluem rotas expressas de ônibus e uma nova linha de metrô, as obras de drenagem para o controle de enchentes, pavimentação de calçadas, ampliação da acessibilidade e iluminação pública com eficiência energética.

Uma reforma urbana de grandes proporções que, sem as Olimpíadas, não veríamos.

O item mobilidade, que é o que mais afeta o carioca, teve mudanças estruturais como implantação de sistema integrado de transporte, ampliação de avenidas, construção de viadutos e modernização do controle de tráfego. Ganhou um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que será integrado a outros meios de transporte, como metrô, trens, barcas, BRT, redes de ônibus convencionais e o teleférico da Providência.

O BRT Transolímpica, entre a Barra e Deodoro, reduzirá o percurso entre os dois pontos em 54%, beneficiando 70 mil passageiros por dia. Com 26 km de extensão (sendo 13 km somente de Via Expressa) e 17 estações. Terá ligação com a Transcarioca, em Curicica, e com a Transoeste, no Recreio dos Bandeirantes, além de ser integrado aos trens da SuperVia, em Deodoro, ainda com conexão Magalhães Bastos – Deodoro.

A prefeitura também inclui na lista o BRT Transoeste, inaugurado em junho de 2012, hoje já saturado, mas com promessa de melhorias como a sua integração com a linha 4 do metrô.

Outro legado importante é a duplicação do Elevado do Joá, com 5 km de extensão, o que aumentará em 35% a sua capacidade viária. O Elevado também ganhou uma ciclovia, cujo cenário por si só faz dela uma das mais bonitas do mundo.

A subprefeitura da Barra relaciona a reabilitação ambiental da Bacia de Jacarepaguá, o que inclui a recuperação do Rio Papagaio, no Anil, que tornou possível a criação de uma área de lazer pública, beneficiando cerca de 350 mil moradores ao possibilitar reduzir as enchentes na região, e o saneamento da Bacia do Rio Marangá, que deverá ter sua primeira fase concluída em agosto, beneficiando com serviços de coleta e tratamento de esgoto, uma área que corresponde a 11 sub-bacias de esgotamento e inclui os bairros de Deodoro, Vila Militar, Magalhães Bastos, Realengo, Padre Miguel, Bangú e Senador Camará, com 232 mil moradores nos diversos bairros da região.

Para a Região da grande Tijuca, o maior legado é o controle de enchentes que contempla a construção de cinco reservatórios subterrâneos para acúmulo de água, visando o amortecimento de vazões e o desvio do curso do Rio Joana, com o objetivo de fazer com que parte das águas tenha deságue independente, diretamente na Baía de Guanabara, sem sobrecarregar o Canal do Mangue.

Há ainda os cuidados com o entorno do Estádio Olímpico João Havelange, com a criação da Praça do Trem, uma área de lazer com 35 mil metros quadrados, e a reurbanização das ruas próximas ao Estádio Olímpico e a execução do Programa Bairro Maravilha em 34 ruas da região. Estas melhorias garantiram às calçadas acessibilidade para pessoas com deficiência. A área ganhou também uma ciclovia com 2 km de extensão.

A prefeitura destaca ainda que, após os Jogos Rio 2016, as estruturas esportivas, as criadas e as revitalizadas, passarão a compor a Rede Nacional de Treinamento que o Ministério do Esporte está estruturando em todo o país e constitui o maior programa de requalificação da infraestrutura esportiva do Brasil em mais de 50 anos. A Arena do Futuro será desmontada e transformada em quatro escolas municipais, cada uma com capacidade para 500 alunos. Três ficarão na região da Barra e Jacarepaguá e uma, em São Cristóvão.

O Parque Aquático será dividido em dois centros de natação e o Parque Olímpico de Deodoro ficará aberto ao público. Um espaço de lazer para 1,5 milhão de pessoas. Há a ciclovia que se estende por toda a orla e ainda a transformação da região portuária, que ganhou vida nova com o Museu do Amanhã, uma praça ampla, avenidas largas e quatro túneis, incluindo o maior túnel urbano rodoviário da cidade, o Túnel da Via Expressa, com 3 km de extensão, dentro da Via Expressa, que terá 6,8 km.

Segundo a prefeitura, os investimentos do orçamento olímpico em obras de legado superaram os 64% do valor total de cerca de 40 bilhões. E mais de 60% do custo, tanto dos Jogos Olímpicos quanto dos Paralímpicos Rio 2016, estão sendo pagos por Parcerias Público-Privadas.

Sem esquecer as críticas à construção de um campo de golfe público em uma reserva ecológica ou ao não cumprimento da limpeza da baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas, muito foi feito e valorizar e preparar-se para usufruir dos ganhos parece mais sensato que ocupar-se lamentando a perda da oportunidade de fazer mais.

A lista é longa

– Parques Olímpicos da Barra e de Deodoro

– Porto Maravilha, incluindo o Museu do Amanhã e o AquaRio

– VLT Carioca, Linha 4 do Metrô e Transolímpica

– 120 novos trens, 93% com ar condicionado

– Piscinões da Praça da Bandeira e Parque Madureira

– Obras do entorno do Cebolão e ampliação do Terminal Alvorada

– Ampliação e ciclovia da Avenida Niemeyer

– 331 novas escolas e 160 unidades de saúde

– Academias da Terceira idade em 182 unidades entre Clínicas da Família e Centros Municipais de Saúde.

Para ver a lista completa, acesse: http://www.rio2016.com/tags/legado.