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Um zelador a seu dispor

Severino da Silva Figueiredo é zelador do Condomínio do Edifício Muki, em Ipanema, onde trabalha há quatro anos, e se destaca por um currículo diferente, que permite uma disposição para o atendimento aos moradores toda especial. Ele diz que está zelador, mas que o seu perfil é de um homem de serviços, mais especificamente do segmento de comida, bebida e transporte. Caprichoso e prestativo, sempre com um sorriso, Severino é reconhecido pela gestora do prédio, Keila Ferreira, por sua iniciativa e compromisso com o trabalho. “É um empregado que não dá trabalho. Pelo contrário, nos deixa tranquilos quanto a tudo o que diz respeito à zeladoria do prédio, pois é muito dedicado. E ainda tem a total aprovação dos moradores, que o adoram”, elogia.

Nascido em Alagoa Grande, próximo a João Pessoa, na Paraíba, veio para o Rio ainda menino e, com a morte do pai logo em seguida, começou a trabalhar com apenas 10 anos de idade, crescendo e trabalhando em comércio de bairro, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O primeiro trabalho foi em uma padaria, onde ficou até os 16 anos, passando depois para uma mercearia, com um bar. Curioso e comunicativo, por onde passou, procurou aprender o máximo sobre todas as atividades e funções. Aos 18, quando serviu o Exército, também não perdeu tempo e aprendeu a dirigir, tirando a carteira de motorista na mesma época. Quando saiu, passou a trabalhar como motorista para uma família, onde também realizava serviços como mordomo.

Mas o trabalho não o agradou, pois sentia-se muito preso. Assim, começou a trabalhar em restaurante, onde só de ver, pois não era a sua função, aprendeu o ofício de barman, e chegou até a ter um drink premiado, para a surpresa de todos, ao participar de um concurso de uma marca de vodca em campanha publicitária para ingresso no mercado brasileiro, no início dos anos 90. “Concorri com barmans dos melhores hotéis e restaurantes da cidade, mas consideraram o meu drink o melhor, a mistura perfeita de sabor e cor”, orgulha-se, sem contar nenhum detalhe da fórmula premiada. O prêmio foi um coqueteleira e um relógio em aço escovado.

A passagem por restaurante serviu para novos aprendizados, mas acabou pedindo para sair, pois já casado e com filhos não os via crescer. “Meu filho mais novo, hoje com 22 anos, ainda me cobra por aquele período. Não tinha vida”, conta. Na época, chegou a trabalhar por nove anos em restaurante, época que fez muitos cursos e chegou até ir para São Paulo para aprender o ofício de barista, o que o levou a trabalhar em um café.

Com um sonho guardado de ter um negócio próprio e o dinheiro economizado até então, achou que já era hora, mas por desconhecer aquele universo, acabou não dando certo. Severino abriu com um sócio uma banca de jornal. “Pareceu uma boa oportunidade, mas não foi desta vez”, conta.

Depois disso, ele passou um tempo em casa. Mas como acontece com quem sempre trabalhou, Severino não conseguiu ficar parado e diz que esta foi a pior época de sua vida. Foi uma irmã dele, que trabalha para uma família moradora do Edifício Muki quem  contou sobre a vaga de faxineiro. “Pensei que ainda não é a hora de ter o meu negócio de comida e bebidas, como sonho fazer ao me aposentar. Preciso de tempo para pensar, planejar, me preparar. E, então, o que ia ficar fazendo em casa? Os meninos já na faculdade, e se eles precisarem de algum dinheiro? Este é um trabalho digno como qualquer outro, me permite ter acesso a pessoas que podem precisar dos serviços que posso prestar, assim aceitei. E foi a melhor coisa que eu fiz”, lembra.

Além do trabalho de cuidar do prédio, depois do expediente, Severino ainda prepara jantares e atua como barman, faz dos canapés as bebidas, passando pelo prato principal, ou ainda trabalha como motorista particular caso alguém precise. “Tenho conhecimento e prática, ninguém me vê de cara feia, e isto faz com que não falte trabalho. Sempre lidei bem com o público e aqui foi a parte mais fácil. O trabalho em condomínio é muito simples, e consigo me sair bem, pois tenho esta vontade de fazer bem feito, um certo sentido de limpeza e organização que fui aprendendo ao longo da vida. Estou satisfeito me dividindo assim entre os vários trabalhos”, comenta.

Hoje, Severino já é o zelador e não mais faxineiro, mas qualquer um que comente sobre as funções, ele diz que é preciso se desfazer de preconceitos. “Todo trabalho é digno. Se há algo que faz diferença é a falta de autonomia, mas se você faz bem o seu trabalho, com amor e responsabilidade, não tem do que se preocupar ou se envergonhar”, defende. Sobre o novo cargo, diz que não mudou muito para ele, pois segue com os mesmos cuidados com o prédio. “Isto não mudou a minha a rotina de trabalho. Continuo chegando cedo, cumprindo com as tarefas, do mesmo jeito, procurando fazer as coisas direitinho”, acrescenta.

Para quem quer começar a trabalhar em condomínios, o zelador faz um alerta: “Tem que procurar saber que tipo de pessoa você é, pois, se for do tipo que se acomoda, pode cair na armadilha de ficar a vida inteira vivendo sem avançar. Ás vezes as pessoas ficam incomodadas de ver que um outro conquistou uma casa, um carro, que tem uma família, mas ninguém pensa que ele trabalhou para ter aquilo. É um lugar muito bom de se trabalhar se você sabe respeitar as pessoas. O trabalho é simples, mas se a pessoa tem a possibilidade de ter outra atividade, não aconselho, porque pode levar à acomodação”, considera.

Apesar disto, Severino não pensa em sair e se diz feliz com o emprego. “É como a nossa segunda casa. Passo mais tempo aqui do que lá. Depois, eu sou uma pessoa que se sente realizado na vida. Não tem muito a ver com o trabalho que estou fazendo. A pessoa tem uma família, a possibilidade de ganhar a vida com o próprio trabalho, não se sente um inútil, isto já é motivo de felicidade.. Se estou trabalhando, estou feliz”, conclui.